Caio Abelardo

Caio Abelardo atravessou a noite imerso no sono dos escolhidos e neste universo onírico, viajava pela Pasárgada dos justos: O país presidido por um governante ungido; abolição do casamento gay; recriminação de toda e qualquer manifestação do corpo – abaixo da cintura, é claro… As noites do Caio sempre povoadas pela absoluta limpeza espiritual e os dias similares às noites. Caio trabalhava o espírito de maneira esmerada e por isso havia galgado inúmeras aspirações de um varão decente, exceto uma: a danada da glossolalia. Para quem vive alheio ao jargão dos ungidos, é a arte de falar línguas desconhecidas durante o transe espiritual, espécie de epilepsia divina, concedida por tempo de serviço prestado à obra do senhor. A ausência da glossolalia descontentava Caio Abelardo, o mais era só louvor. Carro do ano comprado em infinitas e misericordiosas prestações; esposa para reconfortar o varão após a batalha cotidiana; um casal de filhos belíssimos, glórias alcançadas e muitas outras a alcançar. Caio Abelardo constituiu o ajuntamento de ovelhas perfeito para tosquia nos campos do senhor.

O verbo mais adorado pelo Cacá – este é o apelido do Abelardo – era o glorificar. Conjugava para agradecer à conquista das posses terrenas e pela construção do palácio no restrito condomínio celestial. Ao lembrar das dificuldade em sentir o êxtase divino, esquecia todas as conquistas e só flexionava dois verbos: frustrar e invejar. Claro que silenciosamente. Mastigava as migalhas da humilhação:

– Por que até mesmo o irmão Tomé consegue orar em línguas desconhecidas e eu não? Sempre paguei o dízimo em dia, resisti aos apelos da pornografia no mundo virtual e mesmo assim sou incapaz.

Procurou inúmeras respostas, e nada. Aconselhamento no mundo espiritual canônico e extra-canônico – sim, Caio pediu ajuda ao feiticeiro de aluguel do bairro. Buscou psicanalista, e este respondeu de maneira categórica: Você sente desejo de comer sua mãe e matar seu pai. Caio sentiu um leve escárnio na resposta do analista, mas sempre ouviu falar que esse povo de Freud é muito voltado para as coisas da virilha.

Tocou a vida. Trabalhar durante a semana e adorar nos fins. Cultos e mais cultos e… O silêncio grunhia. Caio se negava a aceitar a lacuna idiomática, a inveja dos irmãos agraciados pela convulsão divina, era imensa. Em tamanho, só perdia para o número de pecados cometidos pelas nações de Sodoma e Gomorra. Apelou mais uma vez: Fez jejum – quase greve de fome contra a injustiça divina – o deleite divino sempre chegava em português contemporâneo (aquele do acordo linguístico), para agravar o sofrimento, a língua de Camões vinha mesclada ao internetês. Resumindo em estatísticas: nenhuma manifestação linguística desconhecida.

Um domingo ensolarado, a manhã prometia, Carlos reuniu a ovelhada e se dirigiu ao cercado espiritual. A certeza do Cacá tinha a solidez do bezerro de ouro esculpido pelos descrentes em carnavais passados. Hoje eu oro em línguas (desconhecidas), assim pensava Carlinhos e conjugou variantes do verbo glorificar, silenciosamente, a caminho da igreja. Chegaram ao aprisco e aconchegaram-se na primeira fila, o sentimento de escolhido crescia. O momento de mostrar as habilidades em arqueologia linguística estava pertinho. Caio Abelardo suava. O pastor exortou todas as ovelhas a louvar, Cacá levantou os braços suados e disparou a proferir palavras desconhecidas. Escandia cada sílaba, achando pouco, ousou ainda mais e passou a pronunciar os vocábulos de maneira sincopada. Os demais ovinos se aproximavam, entusiasmados com a nova conquista da congregação. Agora todos podiam proclamar: todo o rebanho é fluente em alguma língua extinta. Dentre as ovelhas a contemplar as improvisações divinais do Caio, Tomé observava ceticamente a revolução idiomática do irmão de crença. Tomé percebia algo de trivial na riqueza vocabular do amado irmão Cacá. A cada momento Tomé ouvia algo de familiar na pirotecnia verbal do irmão. No auge do êxtase, Tomé urra:

IRMÃOS!! CAIO ABELARDO BLASFEMA. AS PALAVRAS DITAS PELO FALSO IRMÃO; SÃO PURO ESPERANTO. IDIOMA DE ESCARNECEDORES.

Após o anticlímax protagonizado involuntariamente pelo Caio. Todas as ovelhas baixaram a cabeça e voltaram às baias de origem. Tristonhas pela pobreza idiomática do querido Caio Abelardo e mais ainda, o prolongamento do jejum idiomático daquela humilde congregação.