Do hábito da leitura

Leitura Heterodoxa

Leitura Heterodoxa

Nos últimos dia, tenho devorado livros com avidez. Em três semanas, aproximadamente, percorri alguns escritos de Henry Miller, Pedro Nava e neste momento Claude Lévi-Strauss. Dessa voracidade em ler, tirei algumas impressões relacionadas ao prazer gratuito – sem duplo sentido.

Há algum tempo atrás, em entrevista ao Serginho Groisman, o cartunista Ziraldo afirmou que o hábito de leitura entre nós, sofre influência dos fatores ambientais. O artista diz que o clima dos trópicos “espanta” o hábito da leitura. Para nós habitantes dos trópicos, é melhor exercitar o delicioso flanar a estar em casa dependurado nas orelhas de um livro. A afirmação do Ziraldo é carente de fundamento. Partindo desse pressuposto, as casas com ar-condicionado teriam maior número de leitores, mas a realidade é bem outra. Padeço da falta de ar refrigerado e mesmo assim leio. Cadê os pesquisadores para ratificar ou refutar a afirmação do Ziraldo?

Independente das condições ambientais, o livro sempre é algo convidativo. Basta silêncio e a leitura segue adiante. Sem silêncio, sem leitura. Inexiste essa história de café quente, cama confortável. É tudo balela. Basta silêncio e o prazer da leitura vem – comigo funciona assim. Se formos esperar as condições ambientais perfeitas para seguir adiante no hábito em pauta, nunca encontraremos essa conjuntura. Só se aderirmos a alguma doutrina adepta do ascetismo, aí sim: sem contas para pagar, silêncio absoluto, sombra e água fresca. Aí surge um impasse: a doutrina vai nos proibir de ler Bukowski, Miller, Sade e outros autores heterodoxos.

Além da conjuntura ideal para realização do hábito da leitura, há outro atributo importantíssimo: sintonia entre leitor e obra. Me deparei com essa bifurcação ao tentar ler a Divina Comédia. Comecei a ler duas vezes e senti um certo desapontamento em relação ao desenrolar da obra. Por mais que exista toda aquela história de ser um clássico da literatura, a Comédia não me acrescentou nada e abandonei nas primeiras páginas. Fica a dica: procure obras que digam algo importante para você e as palavras permaneçam ecoando na sua mente. Seja por que causou algum tipo de inquietação ou porque você sentiu empatia pela trama.

Um detalhe importantíssimo – pelo menos para este humilde blogueiro: além dos fatores acima, procure ler obras em bom estado de conservação. Certas bibliotecas conservam no acervo criatórios de mofo, traças, sujeira e todo um amontoado de papel velho. Fuja dessas bibliotecas e desses livros. Definitivamente, abomino todo tipo de livro rasgado, sujo, mofado, desencapado e etc. Acaba sacrificando o prazer da leitura. Aconteceu comigo e pode acontecer com o nobre leitor do meu adorável blog.

Só mais uma dica: leia! leia! leia!

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Comentador de Facebook e outras aberrações

Diversos motivos me trouxeram à blogosfera. Um deles é virar protagonista do mundo das letras. Isso mesmo que eu acabei de escrever. Quem lê sabe muito bem do que direi a seguir. Quem vive imerso no mundo da literatura, adora dizer que leu ou está lendo os ditos grandes autores.

O que há de errado em ler os grandes autores? Nada. Pelo contrário, é algo enriquecedor e que, no mínimo, ajuda a escrever melhor. Tateando o outro lado da moeda, percebi que depois de muito ler, esta atividade torna-se uma atividade estéril. Todo admirador do mundo das letras vive em permanente conflito: nunca conseguirei ler todos os livros que eu desejo. É um desgaste tolo, quando confrontado aos demais conflitos da existência.

Por que me refiro ao ato de ler em demasia como atividade estéril? Simples. Se continuarmos nessa voracidade “leiturística”, sempre continuaremos na posição de meros espectadores, nunca de protagonistas. Antes que iniciem o ritual de linchamento, peço mais duas palavras. A última coisa que eu pretendo é fazer apologia ao abandono da leitura, principalmente na terra de Cabral. Devemos seguir adiante na deliciosa conversa que é a leitura – ler é um diálogo com as grandes mentes do passado, segundo Descartes.

A leitura deve nos conduzir a posição de protagonistas. Somente as cabeças iluminadas tem algo a dizer? De jeito nenhum. Podemos ser autores no espetáculo da vida. Temos algo importante a dizer. É nesse ponto da história que emerge a relevância da blogosfera. Se a forma de publicar material escrito continuasse da mesma maneira que trinta anos atrás. Nos restaria duas opções: leitor ou escritor. Como a realidade é mutável, para nossa alegria e desespero dos conservadores, podemos escolher a posição de leitor e se nos cansarmos desta, escrever e publicar.

A blogosfera possibilita ao cidadão comum o ato de escrever e publicar seus escritos. Fazendo com que possamos abolir as gavetas e assumir a posição de a(u)tores da escrita. E quanto a ganhar dinheiro com a nossa produção escrita? Se eu soubesse a receita, estaria ganhando dinheiro com palestras e publicando o meu primeiro livro “Coma macarrão instantâneo e fique rico”. Mas não sei receita de nada.

Muito cuidado com o protagonismo adotado por você. Enquanto escrevo esse texto, há uma avalanche de escritos divulgados em redes sociais. A cautela é fugir desse tipo de atitude e assumir as rédeas da folha em branco. Tinha me transformado em um mero comentador dos escritos divulgados no Facebook, pobre engrenagem de rede social. Há algo de errado com isso? Claro! E minha posição de produtor de informação, onde fica? No limbo, basta o Facebook se tornar obsoleto e meus escritos serão sepultados na mesma cova do Orkut. Se somos capazes de discorrer longamente, no Facebook ou qualquer outra rede, sobre qualquer tipo de bobagem, também estamos aptos a produzir nossas histórias e divulga-las. Devemos abandonar o medo de parecer ridículo e reconhecer a importância de produzir nossa(s) história(s). Mão ao teclado!